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Economia
Investimentos terão forte crescimento
DGABC / GM - 27/08/2008 10:30:40
O início do ciclo de alta dos juros no segundo trimestre não impedirá que os investimentos mostrem nova aceleração nos resultados do PIB (Produto Interno Bruto) do período, impulsionados pela importação e produção de máquinas e equipamentos e pela expansão da construção civil.
Para economistas, a FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo)manterá, pelo menos em médio prazo, crescimento bem acima do PIB e do consumo, o que garante mais oferta para atender à demanda e, assim, menor pressão sobre os índices inflacionários.
O IBGE divulgará os dados do PIB do segundo trimestre e os resultados fechados do primeiro semestre de 2008 no dia 10 de setembro. Na ponta do lápis do economista Bráulio Borges, da LCA, o crescimento da FBCF será recorde na série trimestral do IBGE, atingindo 18% no segundo trimestre ante igual período do ano passado.
Caso seja confirmada, a expansão representará um ganho de ritmo significativo ante o resultado do primeiro trimestre (quando a FBCF aumentou 15,2% ante igual período de 2007).
Também otimista, o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, projeta um crescimento de 16,6% na FBCF no segundo trimestre. Já o consultor do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) e ex-diretor de política econômica do Ministério da Fazenda, Julio Sérgio Gomes de Almeida, projeta um aumento no mesmo ritmo do primeiro trimestre, ou seja, em torno de 15%.
Em todas as projeções, o ponto em comum é que os investimentos devem crescer o triplo do PIB no período - cujas estimativas giram em torno de 5,3%. Bráulio Borges acredita que a grande novidade dos resultados da FBCF no segundo trimestre será a aceleração na expansão da construção civil que, segundo ele avalia, terá um aumento de 10,1% no PIB, ante uma alta de 8,8% no primeiro trimestre. Ele explica que o setor está sendo impulsionado especialmente por obras privadas de infra-estrutura.
A FBCF é composta pelos resultados de importação e exportação de máquinas e equipamentos e pelo desempenho da construção civil. Se confirmada, a expansão da construção civil no PIB do segundo trimestre será a maior desde o segundo trimestre de 2004, mas Borges lembra que, naquele momento, ao contrário do que ocorre atualmente, a base de comparação era muito baixa.
A perspectiva de expansão da construção civil também é destacada por Sérgio Vale, que projeta um aumento de 10% no segundo trimestre, levando a uma aceleração no resultado da FBCF. Segundo ele, a expansão na construção está relacionada "com as perspectivas positivas de longo prazo da economia brasileira".
Gomes de Almeida aponta a demanda aquecida e o crescimento econômico como os fatores que garantem um forte crescimento dos investimentos, apesar da alta nos juros. Segundo ele, as empresas não mudam planos de investimento facilmente e, portanto, os efeitos na alta da Selic só devem chegar a partir dos dados do terceiro trimestre.
"Os investimentos estão respondendo ao crescimento da economia e à demanda forte do final do ano passado e do primeiro trimestre", disse. Para Gomes de Almeida, o cenário para os investimentos torna-se ainda mais positivo porque eles ocorrem de forma generalizada. "É um sintoma de que empresas de todos os portes estão investindo", acredita.
Perspectiva - Os economistas avaliam, com unanimidade, que haverá uma perda de ritmo no crescimento dos investimentos a partir do segundo semestre. No entanto, estão certos que a expansão da FBCF continuará forte e bem acima do PIB, garantindo a continuidade no aumento do PIB potencial do País.
Bráulio Borges acredita que a Formação Bruta crescerá 12,9% no total de 2008, variação muito próxima dos 13,4% apurados no ano passado. A expansão estará assegurada, apesar da desaceleração prevista para os próximos meses, porque os investimentos em infra-estrutura devem permanecer elevados, apesar de alguns adiamentos de projetos de pequenos e médios empresários. "A infra-estrutura vai passar ao largo (dessa perda de ritmo)", disse.
Borges avalia que os investimentos privados em infra-estrutura - ele cita energia elétrica, saneamento e concessões rodoviárias - refletem a estabilidade econômica, já que os empresários avaliam um horizonte entre 5 e 10 anos a frente para definir os investimentos.
"Por isso os investimentos em infra-estrutura não devem sofrer com o aperto monetário, devem ser um componente autônomo da FBCF", disse. O argumento é que, como o ciclo de alta de juros é passageiro, não assusta os que tomam decisões focadas no longo prazo.
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Mudança estrutural cria vulnerabilidade
Embalada pelo aumento do preço das commodities e a valorização do real ante o dólar nos últimos anos, a estrutura industrial brasileira se modificou e hoje está mais centrada em setores extrativos em detrimento daqueles relacionados à transformação. Essa mudança, pouco comum em economias emergentes, pode fazer com que as importações de manufaturados, hoje vistas como um fenômeno conjuntural, se incorporem de vez ao sistema econômico brasileiro. E mais: caso a cotação dos produtos básicos recue, essa situação traria dificuldades para a balança comercial e, conseqüentemente, para o equilíbrio externo do País.
"Estamos criando uma nova vulnerabilidade para o Brasil", diz Júlio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industria (Iedi), cujo estudo foi obtido com exclusividade pela Gazeta Mercantil.
Assim, afirma, se essa dependência por importações se consolidar, não há mudança de câmbio que conserte, pois não se consegue rearmar os elos de uma cadeia produtiva facilmente.
O economista exemplifica: o Brasil já foi grande produtor e exportador de componentes eletrônicos e atualmente "nem com incentivos" há uma indústria grande o suficiente para atender ao mercado interno.
O estudo, elaborado com dados sobre o desempenho global da indústria entre 1996 e 2006, mostra que o peso na estrutura industrial dos setores intensivos em recursos naturais foi crescendo em detrimento das categorias de maior tecnologia. No primeiro ano de análise, eram cinco os setores que representavam 51,8% do chamado valor de transformação (diferença entre o valor bruto da produção industrial e os custos das operações). Pela ordem, os fabricantes de alimentos e bebidas, de químicos, de veículos e carrocerias, de coque, refino de petróleo e produção de álcool e o de máquinas e equipamentos.
Passados 11 anos, 50,3% se concentra em apenas quatro setores. Mantiveram-se na lista, as indústrias de coque (que dobrou a participação de 7% para 16,5%), de alimentos e bebidas e de químicos. Ascendeu em participação a metalúrgica básica.
Já setores intensivos em tecnologia e ciência, como de máquinas para escritório e equipamentos de informática e o de transporte, incluindo aí a indústria aeronáutica, mantêm peso de 0,6% e 1,9%, respectivamente, na estrutura produtiva brasileira.
Investimento concentrado
De acordo com o levantamento, a despeito da evolução da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que registra taxa expressiva de crescimento a partir de 2004, os investimentos na indústria estão cada vez mais concentrados .
De um total de 27 setores, oito são responsáveis por 70% do total investido. Novamente, a indústria extrativa de minerais metálicos está entre os primeiros.
"A concentração dos investimentos nesses setores é uma indicação importante em relação à direção em que a indústria está se fortalecendo", indica o estudo. Os fabricantes de coque, refino de petróleo, elaboração de combustíveis nucleares e produção de álcool (classificação na qual se encaixa a Petrobras) lidera os investimentos, com 24,1% do global em 2006 ante 10% em 1996.
Os fabricantes de produtos alimentícios e bebidas, vêm em segundo, com participação de 17%, algo não muito diferente de meados da década passada (16,3%).
Em busca do equilíbrio
Almeida ressalta que o movimento para aproveitar a valorização das commodities é positivo, entretanto, o País deveria compensar essa supremacia com políticas que também estimulassem os outros setores.
"A economia não pode ser dependente de um ou dois fatores. A diversificação, que o Brasil ainda tem, é importante para garantir o crescimento", afirma o consultor, ressaltando que as atividades intensivas em tecnologia são requisito para a expansão equilibrada e sustentável do Produto Interno Bruto (PIB).
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