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Indústria
Para metalúrgicos, crise é passageira
Valor / O Estado - 19/11/2008 09:14:50

A chuva forte da manhã, substituiu o fim de semana ensolarado na grande São Paulo, e cedeu lugar à velha garoa, fina e constante. A instabilidade do clima, semelhante a dos mercados financeiros, fez companhia aos humores dos metalúrgicos da base sindical de São Bernardo do Campo na noite de segunda-feira. Aos poucos, alguns prevenidos chegavam com seus guarda-chuvas e jaquetas, outros não ligavam para a mudança do clima e uma camiseta já era suficiente para ficar a vontade. Jefferson Dias/Valor

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo foi falar sobre a crise financeira e seus impactos sobre o Brasil. Metalúrgicos das grandes montadoras (Ford, Volkswagen, Mercedes Benz) e das autopeças lotaram a sala reservada para o evento. Na platéia, muitos estão com férias coletivas marcadas, mas a maioria apenas para o fim do ano, como é tradicional na base do sindicato. Os semblantes eram menos nublados do que se poderia esperar. E as preocupações também. Nas autopeças, o temor de demissões é maior; nas montadoras, os trabalhadores mantém os planos de consumo para o Natal, esperando que os brasileiros também continuem comprando carros novos.

De camisa pólo branca, Benigno José Domingues, conhecido como "Maluf" por conta de algumas semelhanças com o político, chegou com 20 minutos de antecedência. Aos 53 anos, trabalha no setor metalúrgico desde 1977, quando começou na Volkswagen. Desde 1996, está na Delga Indústria e Comércio, empresa de autopeças, como operador de empilhadeira.

Domingues conta que há vários anos não ouvia falar em férias coletivas, medida anunciada nos últimos dias na empresa em que trabalha. Ele diz que ficará parado por duas semanas (a partir de 22 de dezembro), mas não vê riscos de que a crise afete a fábrica onde está empregado, pois espera que a partir de janeiro a situação melhore. Para o período que ficará parado planeja a pescaria. "A gente tem chumaço (isca), vamos descer até o riacho e pescar um pouquinho" brinca o operário. Apesar da tranqüilidade que manifesta, está atento. "Não dá para ir para muito longe, a gente fica preocupado, o dinheiro que a gente pega é preciso guardar e segurar, a gente não sabe, né?", pondera o metalúrgico.

Objetivo e com um bloquinho de anotações, ele foi à palestra à procura de uma "orientação". "É muito importante participar desses debates para o nosso dia a dia, temos que fazer tudo com o pé no chão" observa Domingues. Ele admite estar preocupado com o cenário para as autopeças. Sempre atento ao que acontece com as montadoras, ele descreve que o clima entre os funcionários na empresa é de preocupação, principalmente por conta de demissões noticiadas em outras autopeças de Diadema, na base do sindicato. Ontem, em Campinas, novas demissões foram anunciadas na Foxconn, de eletroeletrônicos.

Outro operário do setor de autopeças que apareceu para conferir as análises da crise, foi José Augusto, de 38 anos. Na Welcon Fasteel, fábrica em que trabalha há cinco anos e sete meses como operador de máquina no departamento de estamparia, Augusto faz parte da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) e do Comitê Sindical da Empresa (CSE).

Na empresa foram anunciadas férias coletivas para o início de dezembro para acompanhar o calendário das montadoras, o que reforçou, no início, o clima de preocupação entre os trabalhadores, conta Augusto. "O pessoal ficou meio surpreso no começo, mas agora já estão assimilando melhor o fato, embora a maioria tema demissões", acrescenta.

Se para os trabalhadores das autopeças as dúvidas pairam e criam nebulosidades, para os jovens colegas de trabalho e ponteadores da Ford, Sandro Randal Alves, 31 anos, e Jairo de Souza Franco, de 25, o céu cinzento da mudança não provocará diferenças.

Alves completou o ensino médio e decidiu investir em cursos do departamento de Formação Sindical. Fez dois, um de Ergonomia e outro de Formação para Formadores. Orgulha-se das oportunidades e empenha-se em acompanhar de perto tudo o que está ligado às questões trabalhistas.

A Ford informou que as férias coletivas começarão a partir de 15 de dezembro. Para Alves, a parada representa uma pequena diferença na programação dos anos anteriores, mas não implica na desaceleração na produção, e pode ser explicada como uma necessidade de adaptação dos estoques.

Para os seus companheiros de produção, contudo, a notícia não foi recebida com tanta frieza. Alves conta que há muitos trabalhadores apreensivos, mas responsabiliza a mídia pelo clima de desconfiança. Para o Natal, com sua esposa e as duas filhas, ele não pretende alterar os hábitos em comparação com outras festas. Nas férias coletivas, vai aproveitar para descansar e estudar.

Com voz de locutor de rádio e poucas palavras bem cuidadas, o companheiro de trabalho de Alves, o tímido mineiro Jairo concorda com a análise de que o setor não sofrerá grandes adaptações. Em São Paulo desde os 12 anos, quando veio morar com a tia para estudar e depois trabalhar, Jairo planeja uma visita à mãe em Minas Gerais nas férias coletivas. E não teme perder o emprego na volta.

Na Volkswagen, o clima é um pouco mais apreensivo entre os funcionários, segundo o coordenador do comitê sindical, Reinaldo Marques. As notícias de carros parados nos pátios trazem preocupação e levam os operários a questionar as medidas que a empresa pode tomar nos próximos dias.



Leia também:

Setor de autopeças deve demitir 5 mil no Paraná, diz sindicato

Usando como justificativa a crise global, o setor de autopeças e montadoras do Paraná devem começar a demitir empregados a partir de janeiro, após o período de férias coletivas.

Cerca de 5.000 postos de trabalho deverão ser atingidos, caso os efeitos da crise não sejam revertidos. A informação é do presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Paraná, Roberto Karam.

De acordo com o presidente do sindicato, as empresas do setor automotivo não estão recebendo pedidos novos. Ele disse que estimativa é que o nível de produção no segundo semestre de 2008 seja 25% menor do que o registrado no primeiro semestre deste ano.

Os problemas estão ocorrendo por causa da falta de crédito, que atinge o consumo.

"Os bancos não estão emprestando dinheiro porque não sabem se vão receber. É preciso que eles voltem a financiar crédito com juros menores e prazos maiores. Se voltarem estas facilidades, podemos tentar reverter", disse Karam.

O Paraná reúne o segundo maior pólo automotivo do país, atrás de São Paulo, e concentra empresas como Volvo, Renault e Audi/Volkswagen. O setor automotivo, que congrega as montadoras e as empresas de autopeças, emprega cerca de 25 mil trabalhadores.

De acordo com Karam, a maior parte da parcela de empregados a serem atingidos faz parte de um grupo contratado há 12 meses para suprir a ocupar mão-de-obra criada à época com o aumento de demanda no setor automotivo.

A direção do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba acredita que as demissões previstas pela entidade patronal não vão ocorrer.

Por meio da assessoria, a direção do sindicato disse que as empresas "têm uma margem considerável de ociosidade possível, o que evidencia que, para ter problemas de demissões, a queda teria que ser de um nível muito alto, que acreditamos, não deverá ocorrer".

Para os representantes dos trabalhadores, a eleição do democrata Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, com sua plataforma de dar apoio ao setor automotivo do país, e "o próprio movimento do mercado devem naturalmente recompor um quadro de estabilidade".

Mas a direção do sindicato também reconhece que este quadro precisa vir logo. "Se a crise persistir após o final de janeiro, fevereiro, aí sim poderíamos começar a ter problemas", diz a assessoria da entidade.

A assessoria do Sinfavea, que representa as montadoras, disse que não faria comentários sobre o prognóstico do Sindimetal do Paraná. "A avaliação é dele [Karam]. No nosso setor há férias coletivas, e não demissões", informou a assessoria.





Montadoras ampliam férias coletivas no Brasil com queda nas vendas

Queda nas vendas fez montadoras de veículos ampliarem as férias coletivas de trabalhadores. Por causa da crise, o setor já admite demitir no ano que vem. No dia 20 de outubro, três mil funcionários da GM de São José dos Campos entraram em férias coletivas. A folga iria até dois de novembro, mas continuou. Grande parte dos funcionários não esta descansando, porque têm a preocupação do desemprego. Pensam no futuro da fábrica.

No próximo dia 01/12, mais 400 funcionários do 2º turno também vão ficar de folga. É o 3º anúncio de férias coletivas feito pela GM em pouco mais de um mês. Os funcionários da GM São José dos Campos, e os 5.200 de Gravataí se juntam aos 3 mil da Fiat, que tiveram as férias coletivas ampliadas em Betim. Na Ford, mais 8 mil trabalhadores em Camaçari vão entrar em recesso mais cedo. E no Paraná, a Volkswagem deu férias coletivas para 1.800 metalúrgicos.

As quatro grandes montadoras resolveram frear a produção para não lotar os pátios. Com a crise e o crédito mais difícil, as vendas de carros novos caíram 11% em outubro. A GM admitiu possíveis demissões, no ano que vem. Jaime Ardila, presidente da GM no Brasil, diz que isso tudo ocorre pela incerteza no mercado.

Porém o mercado dá sinais positivos. Em feirões realizado no último fim de semana, a GM conseguiu vender 40% a mais do que no início do mês, e reduziu o estoque chegava ao dobro do normal. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, mostrou otimismo com a situação do Brasil. Reafirmou que o país irá crescer acima da média mundial em 2009. E que as medidas adotadas pelo governo para aumentar a oferta de crédito já começaram a dar resultado. Nos últimos 2 dias já há quase uma regularização da oferta de crédito para os bancos especializados principalmente os das montadoras.



Férias coletivas já afetam os fornecedores de peças

A decisão de grandes indústrias de automóveis e de eletroeletrônicos de reduzir a produção e dar férias coletivas causa um efeito cascata nos fornecedores de componentes. Só na região de Curitiba (PR), onde estão instaladas a Volkswagen e a Renault/Nissan, mais de 100 metalúrgicas pretendem suspender a produção entre dezembro e janeiro. Na região de Campinas (SP), uma única empresa de eletrônicos, a Foxconn, anunciou mil demissões esta semana.

Em Betim (MG), 12 fornecedores de peças suspenderam a produção por um períodos de 10 a 20 dias a partir deste mês para se adequar à queda de encomendas da Fiat, que já anunciou três períodos de férias coletivas. No ABC e em São Paulo, avisos de férias nas autopeças ainda não são significativos, informaram sindicatos locais. Pesquisa do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Paraná (Sindimetal) indica que, das 160 filiadas, 89% pretendem dar férias coletivas de uma semana a 30 dias em dezembro e janeiro.

Desse total, 75% não previam a parada porque o setor vinha de um ano e meio de crescimento. O presidente do sindicato, Roberto Karam, já prevê demissões em janeiro. ?Ainda temos o degrauzinho das férias, mas a estimativa é que, até o retorno, o cenário não será diferente e isso deve gerar desemprego.? Segundo Karam, durante o período de expansão, o setor ganhou 5 mil trabalhadores, que se juntaram aos outros 20 mil contratados. ?Num cenário otimista, vamos voltar ao primeiro semestre de 2007.

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As notícias falam em retomada da economia e em uma indústria trabalhando com níveis mínimos de ociosidade e recuperação crescente neste último semestre. Você acha isso:

Verdade, no geral

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Não se aplica ao nosso setor


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