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Economia
Venda no Brasil tira da crise o setor automotivo argentino
Valor - 09/03/2010 11:44:12

O apetite dos brasileiros por automóveis zero quilômetro salvou da crise as montadoras instaladas na Argentina e já fez a produção de veículos crescer 68% em janeiro, na comparação anual, mas provoca um efeito indesejável para os consumidores de Buenos Aires: quem vai às compras enfrenta demora de 30 a 60 dias, na média, para tirar um carro novo da concessionária. O problema atinge tanto os veículos produzidos no Brasil e exportados para a Argentina quanto o inverso (fabricados no país vizinho e vendidos no mercado brasileiro). Por trás da longa espera, que pode chegar a quatro meses no caso de modelos menos populares, está a gritante diferença de preço cobrado em cada lado da fronteira.

O valor de um Celta novo, três portas, modelo básico, com motor 1.0, ficava entre R$ 22 mil e R$ 23 mil em concessionárias brasileiras da General Motors consultadas na semana passada. O mesmo modelo era vendido na avenida Córdoba, uma das principais de Buenos Aires, por 40 mil pesos - exatos R$ 18.726 pelo câmbio de sexta-feira. Com uma diferença: o preço era para um automóvel com motor 1.4, geralmente a potência mínima na Argentina, direção hidráulica e ar-condicionado.

creditos

Para o ex-secretário de Indústria da Argentina e diretor da consultoria Abeceb.com, Dante Sica, as montadoras dão preferência ao atendimento do mercado brasileiro porque "lucram mais". De cada 100 carros que saem hoje das linhas de produção argentinas, 54 são exportadas para o maior sócio do Mercosul.

Do lado contrário, afirma Sica, as indústrias instaladas no Brasil vendem seus carros preferencialmente no mercado interno e veem as exportações à Argentina como um negócio complementar, mas certamente menos lucrativo, por causa dos preços mais baixos.

O presidente da Associação das Concessionárias de Automóveis da República Argentina (Acara), Dante Alvarez, confirma essa prática. Segundo ele, desde que o governo baixou o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de automóveis no Brasil, como forma de beneficiar o consumo e atacar a crise de demanda, as montadoras passaram a reduzir o abastecimento às concessionárias argentinas. "Normalmente teríamos carros no estoque para entrega imediata. Mas, sempre que o mercado brasileira se aquece, falta carro aqui", conta Alvarez.

A fila de espera varia muito conforme a marca e o modelo do automóvel, mas é incômoda a ponto de atrapalhar as vendas, segundo o presidente da associação. "Em janeiro, poderíamos ter vendido até 50% a mais", afirma Alvarez, dono de uma rede de concessionárias que recebe os consumidores com uma oferta de 47.900 pesos - equivalente a R$ 22.424 - pelo Peugeot 207, motor 1.4, com ar-condicionado e direção hidráulica. O mesmo carro tem sido anunciado no Brasil, na versão mais básica, por R$ 28.100.

Maximiliano Cartelli, gerente da Car One, uma concessionária da Chevrolet em Buenos Aires, diz que tem demorado pelo menos 30 dias para entregar o novo Agile a seus clientes.

O modelo, lançado recentemente, é montado na Argentina. Mas o motor e boa parte das peças usadas na fabricação são fornecidas por indústrias instaladas no Brasil.

Cartelli afirma que a maior espera é para os modelos mais caros, cujo estoque nas concessionárias é ainda menor, e pode chegar a quatro meses em alguns casos. "A demora é generalizada. Nesse contexto, ganha pontos com o cliente quem tem capacidade de fazer uma entrega rápida", diz.

Em tese, se a indústria automobilística no Mercosul ainda têm capacidade ociosa, poderia intensificar a produção para agilizar o abastecimento aos consumidores de um ou outro país, conforme as variações de demanda, sem deixar ninguém desatendido. O problema é que a ociosidade não é uniforme.

Algumas montadoras já trabalham à beira da saturação. Outras, que poderiam aumentar a oferta com a instalação de um terceiro turno de trabalho, continuam ainda muito cautelosas. "As montadoras se ajustaram à conjuntura depois da crise e ficaram resistentes a contratar mais gente", avalia o presidente da associação das concessionárias.

Segundo cálculos da entidade, a carga tributária que incide sobre os automóveis zero quilômetro representa 47,52% do preço final pago pelo consumidor. Um fator que ajuda a explicar as diferenças de valor é a forma habitual de pagamento. Na Argentina, 70% das compras são feitas à vista - seja com o pagamento integral do carro novo, o que é a minoria dos casos, seja com a troca de um veículo usado por outro zero. Com isso, aumenta a margem de manobra das concessionárias para oferecer desconto nos preços.

Os financiamentos têm, atualmente, taxa de juros que variam entre 24% e 25% ao ano. Apenas 1% dos negócios totais são feitos por meio de leasing. No início do ano passado, auge da crise mundial, o governo argentino lançou um programa para financiar com dinheiro público a compra de carros zero a taxas subsidiadas e em 48 parcelas, mas foram vendidas menos de 15 mil unidades dessa forma.



Impostos no país são os vilões dos preços altos, afirmam montadoras

Os dirigentes da indústria automobilística costumam apontar a carga tributária como único vilão dos altos preços dos automóveis no Brasil. E, dessa forma, o consumidor nunca sabe se a diferença entre o preço que ele paga aqui e o mais baixo que ele vê no exterior vai para o bolso do fabricante do carro ou para o governo.

Como no Brasil a oferta de crédito é bem maior que na Argentina, a indústria aproveita o mercado que se sustenta e cresce à medida em que aumentam as facilidades para o financiamento. No ano passado, o saldo total das carteiras de crédito direto ao consumidor (CDC) e leasing para aquisição de veículos por pessoas físicas somou R$ 157,1 bilhões, o que representa aumento de 12,9% em relação a 2008. Se no Brasil, 70% dos carros são pagos em prestações, na Argentina ocorre o inverso. O financiamento aparece em 30% das vendas.

Em relação aos impostos, a carga brasileira é, de fato, uma das mais elevadas do mundo. Mas já foi maior. Ao longo dos anos, as montadoras recorreram a diferentes apelos para convencer o governo a reduzir os impostos dos modelos mais vendidos. Foi assim com o carro popular e agora com o do motor flex, que funciona com gasolina ou álcool.

Na faixa de motorização 1.0 a 2.0, que engloba praticamente todos os automóveis fabricados no Brasil, os impostos somam 26,4% (sem levar em conta o IPI menor, em vigor até o final deste mês). É o dobro da Espanha. O carro brasileiro carrega carga de tributos bem mais elevada que os carros alemães (16%), japoneses (9,1%) e Estados Unidos (6,1%). Os argentinos não conseguem definir ao certo a carga sobre veículos. Apenas o IVA (imposto sobre valor agregado) é 21%. Mas, segundo as entidades que representam indústria e concessionários, com a soma de outros impostos e contribuições, o total pode passar dos 47%.

O comando das montadoras do Brasil e também da Argentina se concentra no Brasil, já que praticamente todas as empresas têm fábricas dos dois lados da fronteira. Ao serem questionados sobre a existência de filas de espera e sobre a diferença de preços, as montadoras trouxeram muito pouca informação.

Por meio das assessorias de imprensa, a Volkswagen não confirmou existência de filas. A General Motors informou que não ia se pronunciar sobre o assunto. O grupo PSA Peugeot Citroën não respondeu.

A resposta mais completa veio da Ford. A montadora não confirmou as filas e disse que tanto a fábrica de Pacheco, na Argentina, como as de São Bernardo (SP) e Camaçari (BA) estão conseguindo atender à demanda dos dois países. Segundo a Ford, a diferença nos preços praticados em cada mercado se justifica "pela diferença na carga tributária que incide sobre os veículos comercializados no Brasil, pelos diferentes acordos comerciais firmados com os distribuidores de cada país e pelos custos adicionais do processo de exportação, bem como pelas diferenças técnicas existentes entre os veículos".

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