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Economia
Copom consolida ideia de Selic estável até 2011
Valor Online / Folha Online - 02/09/2010 10:34:30

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) não foi surpresa. A estabilidade da taxa Selic em 10,75% era antecipada há pelo menos duas semanas pelo mercado de juros futuros.

O que chamou atenção foi o comunicado, geralmente lacônico, o colegiado passou uma mensagem maior: "Ao mesmo tempo em que não espera que o nível de inflação registrado nos últimos meses se mantenha em um futuro próximo, o Copom observa a continuação do processo de redução de riscos para o cenário inflacionário que se configura desde sua penúltima reunião. Nesse contexto, o Comitê avalia que, neste momento, a manutenção da taxa de juros básica no nível estabelecido em sua reunião de julho proporciona condições adequadas para assegurar a convergência da inflação para a trajetória de metas."

Segundo o economista-sênior do BES Investimentos do Brasil, Flávio Serrano, o BC, assim como todos os participantes de mercado, sabe que a inflação não deve continuar rodando próximo de zero, mas que isso não vai causar grande problema, pois acredita nesse processo de redução de riscos ao cenário de inflação.

Para o especialista só a ata deve esclarecer o que vem a ser esse "processo", mas o melhor palpite é a avaliação de que o cenário externo deverá continuar com influência deflacionária sobre o mercado local.

Mostrando prudência, ou fazendo um hedge (proteção), como se diz no mercado, o Banco Central usou a expressão "neste momento", ao avaliar que a taxa é condizente com a trajetória da inflação.

Dessa forma, o colegiado deixa em aberto qualquer novo movimento nos juros, mas, de acordo com Serrano, uma mudança de juros não deve acontecer em 2010, que reserva mais duas reuniões. Uma em outubro e outra em dezembro.

Olhando para 2011, o economista mantém a expectativa de alta de juros. Mas ainda não fechou seu cenário.



BC espera mudança em tendência da inflação, dizem analistas

O Banco Central advertiu no comunicado desta quarta-feira que já conta com uma mudança nos rumos da inflação nos próximos meses. Mesmo nesse contexto, avaliam analistas do mercado, a autoridade monetária não deve mexer nos juros antes de 2011. Hoje, o BC anunciou a manutenção da taxa Selic em 10,75% ao ano, como esperado por boa parte do setor financeiro.

"Como o BC tem ressaltado nas últimas atas, o momento ainda está cheio de incertezas. E neste cenário, é melhor não mexer [nos juros primários]", comenta Silvio Campos Neto, economista-chefe do banco Schahin.

No comunicado de hoje, o Comitê de Política Monetária admite não esperar "que o nível de inflação registrado nos últimos meses se mantenha em um futuro próximo". Os índices de preços ficaram consistente baixos nos últimos três meses, inclusive apontando deflação (-0,05%), a exemplo do IPCA-15 de agosto. Outro índice de preços bastante influente, o IGP-M, sinaliza que esse quadro não deve se manter: de julho para agosto, a variação passou de 0,15% para 0,77%.

Em uma análise preliminar do comunicado divulgado há pouco, o economista avalia que o BC deu uma espécie de "aviso" ao mercado: "acho que ele quis dizer: "não esperem que a inflação se mantenha no mesmo nível dos últimos meses". O que é algo que muita gente no mercado já está esperando. Ao mesmo tempo, ele considera que o nível atual dos juros será suficiente para manter a convergência das taxas", acrescenta.

No trecho seguinte do comunicado, a autoridade monetária diz esperar "a continuação do processo de redução de riscos para o cenário inflacionário que se configura desde sua penúltima reunião".

A decisão do BC foi aprovada por representantes do setor financeiro. "Entendemos que o fim do ciclo de alta nesse momento não é prematuro, pois os índices que medem a inflação seguem sob controle; também já é possível descartar a possibilidade de o ritmo da atividade econômica voltar a crescer descontroladamente, apesar do esperado aquecimento econômico no segundo semestre", comenta Walter Machado de Barros, presidente do Ibef-SP.

O BC tem mais duas reuniões mais decidir os rumos da política monetária do país, em outubro e dezembro. O mercado futuro de juros indica que os juros não devem subir tão cedo: as taxas projetadas para janeiro e abril de 2011 não ultrapassaram a casa de 10,8% na rodada de negócios de hoje.



Indústria e comércio criticam manutenção dos juros

SÃO PAULO - Entidades dos setores da indústria e do comércio criticaram a manutenção da taxa básica de juros (Selic) no patamar de 10,75% ao ano, interrompendo uma sequência de três altas.

Em nota divulgada na sequência do anúncio do Comitê de Política Monetária (Copom), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) disse que a manutenção frustrou suas expectativas.

"Esperávamos que o ciclo de redução dos juros começasse na reunião que terminou há pouco", afirma no texto o presidente em exercício da CNI, Robson Andrade.

Ele cita que a perda do ritmo da inflação e da atividade econômica é um fator que já permite ao Banco Central (BC) afrouxar a política monetária.

Para a Federação do Comércio de São Paulo (Fecomercio), a manutenção de juros deveria ter sido tomada há quatro meses, quando o Copom voltou a elevar a taxa Selic.

"Na prática, teria sido muito mais adequado não ter promovido aumento da Selic no início do ano. Desde então, o país está gastando uma fábula com juros, enquanto a inflação não se move há mais de quatro meses", afirma, também em nota, o presidente da Fecomercio, Abram Szajman.

Tanto a entidade do comércio quanto a instituição da indústria defenderam uma retomada dos cortes da Selic já na próxima reunião do comitê, de forma a estimular um reaquecimento da atividade econômica.

Ao justificar a decisão, o Copom disse que observa uma continuidade no processo de redução de riscos inflacionários, ao mesmo tempo em que não prevê a manutenção do nível de inflação registrado nos últimos meses em "um futuro próximo".

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) avaliou que o comitê "mais uma vez" errou em seu diagnóstico. "A próxima ata do Copom, por justiça, deveria começar com a frase: Desculpem, mas erramos", diz a entidade patronal.

No texto, a Fiesp argumenta que houve um arrefecimento da demanda a partir do término de incentivos fiscais adotados durante a crise. Além disso, a entidade diz que a produção industrial mostrou queda nos três meses do segundo trimestre. "A utilização de capacidade produtiva está estável e, até mesmo, com sinal de queda em razão da alta de investimentos", afirma a Fiesp.

Mas nem todos manifestaram posição contrária à decisão de política monetária. Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), disse que a manutenção foi uma ação "inteligente". "Não desejamos medidas agora que possam interromper o ciclo de crescimento que a nossa economia está obtendo", comentou.

Já a Federação do Comércio do Rio de Janeiro (Fecomercio-RJ) disse que o Copom "acertou", apesar de o Brasil seguir com os juros reais - aqueles que descontam a inflação - mais altos do mundo.



Força Sindical chama decisão do Copom de decepcionante

A Força Sindical criticou nesta quarta-feira a decisão do Banco Central de manter a taxa Selic em 10,75% ao ano, que chamou de "decepcionante".

"Uma queda substancial na taxa básica só traria benefícios para o País. Enquanto todos os indicadores sinalizam para o crescimento econômico, inflação sob controle e queda no índice de desemprego, o Copom insiste em impor um forte obstáculo ao desenvolvimento. Infelizmente, mais uma vez, o governo se curva diante dos especuladores", disse Miguel Torres, presidente em exercício da Força Sindical.

A central acrescenta em nota que "a manutenção dos juros em patamares estratosféricos é contrária a qualquer projeto de estímulo da retomada do crescimento econômico".


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